§ 1

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gritar move ou paralisa: subir e descer é o mesmo.

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estranha força que faz com que o texto possa ser tomado verdadeiramente como coisa viva apenas no momento em que o café por sobre suas páginas se espalha e envergo as suas páginas para que algum excesso escorra para o chão no instante anterior ao que me levantarei implorando alguma solidariedade aos olhos que nada viram e andarei tenso pé depois de pé depois de pé trocando algo de algum reino por algum papel que absorva toda aquela vida que se impôs às minhas secas dúvidas […]

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não posso dizer que não foi frustrante descobrir que o argentino é um brasileiro de classe média que fala espanhol.

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1. depressão
2. Nat King Cole Porter e o câncer
3. amor correspondido
4. ventríloquo solilóquio
5. ao portador

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melancolia se alimenta de si mesma. tal instintos criam novos caminhos […]

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sabes, imaginei que se uma gota de doce restasse e pairasse, sola, descalça no deserto de sal, as não areias te chupariam desde as raízes, e se o mar morto te abraçasse, dadivoso, ele iria atrás por cada buraco de agulha do seu corpo, das suas vísceras, dos seus sonhos, e desvãos, até encontrar aquele cristal de açúcar, aquele último, por onde sumiria grânulo. imaginei que, se protegido, pela membrana daquela música, eu veria tudo um pouco comiserado da fragilidade de tudo, mas a cada vez em que precisaria repetir as melodias, voltar o disco, acertar o prego, naquele instante de silêncio, mesmo, descobriria-me, novamente, implacável, choroso, sobre o vidro quebrado, sem sangue, pelas minhas mãos, nodosas, de tanto sal.

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se o seu nome fosse Leoa ou Ursa o que importaria? o meu corpo seria socado, duro, de quem envelheceu fazendo exercícios e muito tenso. o seu seria um pouco fofo, esticado, de quem é muito nova e está crescendo. ainda que eu estivesse perto, e você também, e eu mais alto, de alguma forma porque cresceu muito rápido e os cabelos ainda novos, compridos, faria-me intimidado. por que estou tão longe se quero tão perto? daríamos os nossos nomes em silêncio. depois gritados pelos ventos nos descobriríamos. ai filha. sou Cesar, tu, Leocádia ou Úrsula, o que importaria? se Leoa? se estrela? se Ursa? eu descobriria que está tomando café, ainda que diluído em leite. ainda que sob todo um encanto de cartolina. todos em volta tomando leite. todos tomando leite como regredidos mamíferos. mas tu, Leoa ou Ursa, o que importa?

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quando as imagens perdem a carne, o contorno, ora, no momento […]

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besteira, a metáfora, como se fosse, existe na simulação da dor, sabe bem disso, na dor o abrandamento das coisas pelas imagens, na perda de toda cumplicidade, na dor estamos enclausurados na imagem e elas não se abrandam, sabe bem disso, imensas quando não se apagam, mas tão pequeninas quando alegorias da perda. ai, sabe bem, que aquele drama lutuoso passou, mas restou o luto. seria bom que estivéssemos todos de preto e pronto, espero que me lembre do calor. restou o luto sem apoio de drama nenhum, muitos risos, claudica, claudica, mas sem bengala, muitos risos, viramo-nos com as nossas perdas, em primeira pessoa, mas sem álibis. ainda quer ir de roupa colorida? eu tenho meias pretas sobrando. vamos, risos, pense no caminho em se por do outro lado, calma, nem tanto, pense em escrever a voz da perda, em voz alta, na empresa mesma das memórias póstumas, aos olhos perdidos, escreva a eles. eu juro que penso que não seria muita concessão, poderia dizer que é uma escrita da busca não do encontro etc. etc. etc. mas desencontro não, muitos risos. algo n'algo que possa encontrar os olhos do par / tido. mas em que pessoa é encenada a dor em nome próprio? se o fosse não teríamos uma destrutiva terceira pessoa, implacável. ora, se volumes de Melville são exumados e despachados […] ora, alguma coisa se esconde por aí […]

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