§ 11

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assustados com o aparecimento repentino do entregador d'água, as moças exclamam: - como o senhor é rápido, nem bem pedimos e já nos aparece. Embebido em picardia, ele pousa o galão na bancada, afasta-se um pouco, olha-nos, e num rompante: - meu nome é The Flash. sabem quem é o The Flash? - balbucia mais algumas coisas e notando o meu riso contido, indaga: - e o senhor quem é? - Eu sou a esfinge - bem lentamente, respondo. Donde imediatamente se apavora, diante da iminência de ser devorado. 

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herdarão a terra os portadores de mochilas - interpreta Zaratustra - equipadas internamente com galões de oxigênio aureolados, aplacadores da angústia do câncer de pulmão, ostentadores a tubos plásticos dicotômicos até o encaixe aos orifícios do nariz, murmurantes às retinas de plasma e maçã mordida: é o fim.

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sempre que olho para o forno nos dias frios sinto o que Sylvia sente, logo estou preocupado com as frestas da janela e das portas e pergunto a mim: - deveria haver alguma coisa queimando?

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o t e o c minha velha, o j e o i, nem mesmo o f e o s destituídos, sabe, comadre, uma mesma e apodrecida coisa .

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como suportar viver em um mundo em que não há mais sentido em se perguntar as horas?

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ora, por que a surpresa de que a análise entre os pares não tardou por aniquilar os ímpares?

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sabe o esquizofrênico e a dúvida acerca da realidade dos seus amigos? então, é como o obsessivo compulsivo e as suas manias.

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as manias estão para o obsessivo compulsivo tal como as lâmpadas perto do olho estão para o sol.

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ela escolheria exatamente aquela música, para quando fosse vista por mim, tivéssemos aquela sensação de estarmos nos apaixonando num filme do Woody Allen / ela era de tal natureza que o compreendia para o bem e para o mal / acho que eu também / & assumiríamos o risco até o fim.

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vovózinha, por que estes dentes tão tintos? - é porque ainda não sinto / com tão pouco tanino / o veio estancado, chapeuzinho.

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tudo na Europa cheira
a Birkenau. eles se acostumaram
ao odor ou tenho por cérebro um cancro.

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- então, isso quer dizer que…
- não, não quer não, desculpa.

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na sentença 'o leão é rugidor' quem sofre é o felino?

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é impossível ensinar aquilo que já se sabe, o gesto de impostar em público o que já se sabe é tão somente doutrinário. por essa razão admitir a possibilidade do ensino é também a de perceber que não se pode ensinar nada que já se sabe a alguém. não, ao contrário do que se pensa, em toda ladainha sobre o mal necessário, não se precisa da doutrina para nada, a não ser para mortificar o pensamento e o ensino. assim, quem não sabe pensar em público não sabe pensar ou ensinar, que são o mesmo.

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à primeira nota
a tocar meu ouvido, pousou a dúvida.
antes mesmo de sabê-la música:

- mas então há mosquitos em Lisboa?

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