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em virtude da faísca do seus olhos, tive certeza de que seria capaz de me dizer se o número das estrelas seria ímpar ou par. senti que por mim se colocaria a contá-las com a ponta dos dedos, ceifadora que seria do receio de certa nuvem de pestes que lhe ocorria. nos seus olhos virados para cima, buscadores e desviantes da forte luz fria, recebi a mensagem da sua dedicação a me fazer um teorema em forma de poema que de alguma forma me daria a resposta. neste momento de desterro deixei de ser uma criança bonita a convencer os adultos da necessidade de se entulhar o vazio da minha solidão com objetos coloridos e tons lúdicos de vozes.
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entre dois tombos deus flutua / deitado ruidoso em Pound / mas não pense ter me ocorrido tombo por que hesito diante do muro. é a grande surpresa de que me espirra para antes de mim. se flutuo é porque de dois em dois / no par ou ímpar / duvido. não será suspenso se não for capaz de restar imóvel / admitindo os ruídos.
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se os traços sobre a sua pele fossem um pouco mais fundos, tenho certeza de que perderia todo esse constrangimento que me impede de os chamar de alma. mas assim? apenas como duas tiras que lentamente se evaporam às suas coxas / um tanto nuas / depois que se levanta / no máximo as vejo como suspiros, mas não como respiração.
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estranha é a compressão
dos dedos ensapatilhados quando
o pé apoiado na dinâmica do
corpo sentado / ao chão se enverga
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não diga ele sofre mal / mas tão somente ele sofre.
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guardo nos dedos mais queridos, no momento de contá-los / as coisas que me dão mais prazer do que escrever parágrafo.
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