§ 3

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um animista bem intencionado, envolto nos rosas do seu mundo, poderia pensar em um castor, mas o animal que passa quase a inteireza das suas conversas a debater mercado imobiliário é definitivamente um carioca. alguém tão bem intencionado quanto um animista, diria que isso se deve a uma confluência de elementos econômicos que perturbaria deveras as pessoas. mas o mais bem intencionado dos céticos, ainda assim, pensaria que não haveria razão para inserir na conversa enunciados sobre o bem ou o mal das moradias, uma vez que a dignidade das mesmas seria pressuposta. Mas, ainda que sim, se fosse necessário, por que a expressão do bem ou do mal contida no 'morar bem' ou 'mal'. logo o melhor dos céticos, o mais ingênuo, chegaria a conclusão de que fora o modo predial, equivalente, mas expansivo, encontrado, para recolocar aquilo que bradava em vazio no peito: a velha conversa sobre "o negro de alma branca".

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quando chegou na cidade percebeu que podia guardar, ao entrar numa casa quente, apenas a certeza de que as coisas seriam diferentes e de que uma fotografia rasgada era sinal de amor intenso. fora informado de que o vinho do porto não era tomado no porto. era mais guardado para os estrangeiros e feito pelos ingleses. mas como poderia realizar um saber de coisas tão aleatórias, quanto ao fato de que a destruição de objetos era uma forma de deixá-los sempre vivos, e que alguma coisa no fungo redutor das uvas, transformador do líquido em alguma coisa como uma pasta dificultosa, era suficiente para se pensar que ser buscado por alguém distante era o máximo que se poderia esperar de uma coisa assim. ambas destruídas. pensou que talvez pudesse morar ali. como alguém que numa noite fria se amanceba com alguém cujo idioma não fala, para poder se aquecer num inverno, e acabar por descobrir que essa é a única ação capaz de provocar um sentimento verdadeiro. mesmo sabendo de tudo isso. preferiu voltar para casa e viver o resto da vida como se sua mulher tivesse morrido, ainda que sem nunca a ter conhecido. devanear com a certa irritação com os copos nunca no banheiro abandonados e com a cólera com o hábito bárbaro de levemente empurrar o prato para frente, depois de comer.

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