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há o mito de hermes
mas não há escrita clara ou escura
mas espíritos claros ou escuros
há quem goste de dias de sol
há quem goste de penumbra
há quem assista a luz e a conte desde a sombra
há quem assista a sombra e a conte desde a luz
há quem goste de sol mas habite a treva
há quem goste da treva mas habite o sol
há quem more entre dois mundos
mas a esses é impedida uma fala única
mas a esses o grafo soa como claro e escuro
há diante o horror / depois dele
Levi & a obrigação de ser claro
Celan & o inexorável betume
Levi & a obrigação de ser claro
Celan & o inexorável betume
há o mito de hermes
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antes de perguntar sobre a procedência da música
alegar certeiro pelo incômodo que provoca
os tímpanos que estoura as almas que supura
procure saber o que ela encobre
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ela disse a mim, isso não basta?
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só morde ou afoga ou espeta se chegar muito perto.
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estava andando de noite na chuva quando ouvi um miado. olhei para um lado. para o outro. não vi nada. andei mais um pouco. o sapato estalou no calçamento mais umas três vezes. suspeitei de que o ruído poderia partir debaixo de um carro. sim, não estava no primeiro, mas no segundo em que espiei. havia um gato encharcado. um pouco apavorado. molhado de chuva e com medo de que pudesse ser mais atingido. coloquei-me na posição de apanhar o bichano. mas me veio uma velha história na cabeça. uma que meu pai me contava. de que havia um velho padre na Hungria. que encontrou a sua Igreja toda urinada e ficou muito irritado com isso. o padre quis saber o culpado. olhou para todos os lados, como eu fizera. & desconfiou de que pudesse ser um gato. trancou o bichano na sacristia com a intenção de lhe dar uma surra, para que aprendesse. a história termina com um corte bem profundo do gato no pescoço do sacerdote mais o inevitável sangramento até a morte. entrei em casa como um raio. busquei uma toalha. que seria a intermediária entre o meu pescoço e o animal. era bem manso. na verdade, era bem mansa. a levei para casa, mas deixei um acesso aberto para a área, no caso dela resolver ir embora. acrescentei a isso um pouco de leite, sabedor de que uns dizem que gatos gostam, outros dizem que não. de juízo suspenso fui dormir, tentando encontrar um nome para a nova amiga. acordei com o nome na boca: Eveline.
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t'aime
tu m'
ama
be -
tume?
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diante do espelho ela pergunta: que forma de vida é essa capaz de inferências lógicas, mas não de contas de subtração?
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