-------
uma formiga pode fazer corpo mole?
-------
eram linhas tratadas por muitos meses. guardava-as na gaveta superior da escrivaninha, do lado esquerdo. mexia em letra por letra, com todo o carinho. era para o resultado ser uma jóia, tudo nele pensado. havia ouvido de um velho amigo que depois de escrever alguma coisa era preciso deixar o texto descansar, deixar a tinta decantar, algo assim. veio a sanha de final de ano. tantas folhas para serem rasgadas. nesse apartamento pequeno, livros inúteis deveriam dar lugar aos novos ou outros. por que a gaveta não fecha inteiramente? imagina que algum objeto dela tivesse ido para aquela zona morta. retira a gaveta inteira, é tempo de encontrar alguma ordem interna a partir das tarefas. o susto é imenso. um exército de formigas não só davam nova vida à zona morta como amontoavam pequenos pedaços de comida. ali, na mesa de trabalho. debaixo do nariz. é madrugada e se descontrola. atira nelas todas as substâncias químicas encontradas, álcool sobretudo. por pouco não incendeia a tudo com o cigarro aceso. produz mortandade que a tranqüiliza. apenas terra devastada. as mãos se movem como que por mecânica. rasga papel por papel em partes iguais. como ranger os dentes dormindo. primeiro as rasga em pedaços de mesmo tamanho. até que não mais pode fazê-lo. empreende pilhas ainda menores. ainda menores. terra devastada e uma calma infernal a recompensa. como os tratos com o inferno, há preço. dá-se conta de que precisou não se perceber arrasadora de si mesma. não só destrói as folhas tão queridas, seus preciosos traços, por assim dizer, como percebe ainda algumas formigas em marcha. agora para trás de uma das estantes. remove os livros, o suficiente para confirmar a suspeita. dezenas ou centenas, não sabe bem. não reage da mesma forma. é calma. o mundo está meio sem sentido. esparge a substância tóxica e as percebe morrer e fugir. deixa que fujam, e que morram. os dias seguintes são para vislumbrar a frustração de não conseguir colocar os ínfimos pedaços de papel de novo juntos. primeiro porque a ordem é quase impossível de ser determinada, depois porque o suor da ponta dos dedos mais a cola da fita adesiva borram a tinta tornando o irreconhecível uma mancha. a visita do exterminador não tem muito de especial. ele fornece como quem repete uma tabuada decorada algumas informações sobre colônias e larvas.
-------
- você é amebóide.
- não, você que é.
-------
quem és, desembalada criatura atroz / que jamais aventaste uma crase a vácuo?
-------
o mais próximo de um auditório universal que terá para hoje, meu anjo, são os ouvintes acidentais, cuja possibilidade corajosamente assume, nas frases envergonhadas que pronuncia, enquanto canta, com essa sua voz estranha, para si mesma.
-------
apenas o aposto dá sentido à vida.
-------
o bom da água é que ela não inventa moda.
-------
de Campos diz, naquele livro em que o barulho da queda faria Pound, mas que ele mesmo não cairia de joelhos, que um lobo aprendendo o abcde não ouve abcde, mas ovelha, ovelha, ovelha. num poema a Szymborska verseja "A alegria de não ser eu / o lobo de suas ovelhas." a Dickson escreveu que “se ambos somos Rei / Que outro Fim / Salvo abdicar- / Me de Mim?”
-------
é triste que a melhor coisa que as pessoas podem pelo mundo é me fazer sofrer.
-------
meu avô um dia me disse que a política
era uma cachaça da qual eu deveria me manter longe
um conhecido sob ressaca formigando no corpo disse
que a bebida machuca
-------