§ 20

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daí fazer alguma coisa
com toda aquela consciência
do potencial cênico da luz
no ambiente? o que poderia?

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ligou o abajur

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o canibalismo
é um incentivo adicional
ao perseguido

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Alma,
se indignifica o nome,
para se abolir a palavra,
não sente e persiste,
Alma,

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a perspectiva de Deus sobre a humanidade
sempre foi equiparável a do bombardeiro

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eu sugeri que o sentido
do que ele dizia é que ela havia se prostituído
daí calhou de me recomendar cuidado com as palavras

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não mais me ressinto
pelos espaços restados
ou de que os morcegos os tenham
chamado / / frestas

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nunca me importei de não sermos
rapsodos. a memória de grego nunca
me fez sentido. nem mesmo quando me
esforcei hospitaleiro para lembrar de versos

nem que o andarilho de memória extensa
tivesse o auxílio da música para concatenar
as passagens que alterava pouco a pouco
como forma de manter o passado quente e novo

entre as esquizofrenias sempre me senti
mais próximo aos decifradores de rastros
& mais distante dos recebedores de mensagens
ainda que enviadas supostamente do passado

até porque hão de convir que o barbudo
com a lira ficaria ridículo vestido lutoso
após memorizar dificultoso os versos outrora
de Catulo golpeados a dedinhos no telefone

não que proponha que se dispa da camiseta
para cantarolar acusticamente à antiga, mais  
sobressaltado do que cúmplice do verbo-voco 
sem freio num barítono recém consolidado

é que quando ouço que isso ou aquilo nascido
entre os jônicos ou entre eles morrido, revigora mais
um tanto o que somos & tínhamos esquecido, me
tenho agradecido por ter alguma sociologia lido

por mais que entenda as belezas do anacronismo
quando este serve apenas para dizer que não há grego
como o grego antigo ou que a origem do nome não é mais
como o nome repetido, hm, poxa, quem não sabia disso

mais vistoso é procurar levemente nostálgico nos fragmentos
do tempo, artefatos da acomodação imprevista entre a imagem
& o mundo, na aceitação doída de que o trágico da vida é que
não mais retorna aquela beleza que houvera sido

apesar de todo o mal é preciso ter um arquivo
não uma memória de elefante, mas restar investido
em folhas de papel repletas de carimbos, selos e riscos 
por que lembrar do que não se queira / vítima / ter esquecido

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que se fale pouco
porém adequadamente, na precisão
entendedora / sobre isso

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não me ocorreu jamais saber de alguém
a ter enfrentado condições parecidas com essas

até tomar conhecimento da Aimée
cuja existência havia sido gerida no hospício

ela como eu andava entre os insanos
sem ser completamente qualquer coisa

acompanhada quase sempre pelos olhos
quase atentos de alguém a assegurar os cuidados

entre os dela era dado pensar que dos loucos
se devia esperar aquilo que virtuosamente não se faz

que uma distração custaria ao seu corpinho de
menina ser encontrado aos pedacinhos

nunca me ocorreu que estaria em perigo
ou que poderia ser aos pedacinhos reduzido

se percebo invocando o passado se havia
olhos cuidadosos sobre mim, acho que não

muito embora fosse assustador imaginar
que os poderia encontrar no gramado ressequidos

o que mais se dizia era que um dos internos os
arrancava e os arremessava se com ele se bulisse

quem sabe se ela não acabasse imensa e feia
não fôssemos predestinados um para o outro

de um lado / ela / segura de que o mal viria sem a
bondade dos sãos e do outro eu, certo que não

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todas essas pessoas que assisti a crescer
todas elas tão mais habilitadas à vida do que eu
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onde foi que se perderam?

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sobre o que não se pode falar
tereu teu teu

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